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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

AUTISTA DE 11 ANOS LANÇA LIVRO EM PARCERIA COM A MÃE.

Menino autista de 11 anos lança livro em parceria com a mãe

Larissa Godoy - Revista Crescer - 22/02/2016
Uma parceria apaixonante entre mãe e filho promete emocionar os leitores. Claudia e Thor Guenther apresentam o livro “O Bebê Dragão”. A história, contada e ilustrada pelo menino autista de 11 anos e transcrita pela mãe, é voltada ao público infantil, mas pode fazer muita gente grande voltar a ser criança!

Thor é uma criança de 11 anos. Aos 2, recebeu o diagnóstico que mudaria a vida família: tinha o transtorno do espectro autista. Deixou Dubai, nos Emirados Árabes, onde a família morava na época, e voltou para Balneário Camboriú (SC), no Brasil. Em busca de informações, Claudia, sua mãe, que é fonoaudióloga, começou a pesquisar. Queria depoimentos. Queria um futuro diferente do que até então a condição do filho parecia limitar. Juntos, os dois decidiram seguir um caminho enxergando alternativas. Um um dos primeiros resultados dessa escolha apareceu em junho de 2015. Thor e Claudia lançaram O Bebê Dragão (R$ 15), o primeiro livro do menino.

A obra, que conta a história de uma família que encontra um ovo de dragão, é marcada por espaços que desafiam o leitor a interagir, desenhando ou escrevendo, a explorar sua imaginação e liberar sua emoção.

Em uma entrevista por telefone - que contou também com uma pequena participação do pequeno -, a mãe de Thor falou sobre o que mudou para o filho depois dessa experiência, que não só quer escrever mais livros, mas também quer fazer roteiros para filmes.

CRESCER: Como escrever o livro mudou a vida do Thor?
Claudia: Foi incrível a mudança. Thor tem dificuldade com a leitura e a escrita por conta do autismo. A gente faz acompanhamento fonoaudiológico porque ele precisa de um apoio, ter alguém por perto para orientar. Mas ele é muito imaginativo, criativo e tem uma rapidez incrível. A oralidade dele é muito boa, mas a escrita não segue o mesmo ritmo. Digo que ele é a cabeça que pensa e, eu, a mão que escreve. E quando ele viu que é possível escrever, dar forma ao que ele pensa, a relação dele com a escrita e com a leitura evoluiu. Eu deveria ter feito isso antes! Para o Thor, foi um ganho significativo. Ele tem uma relação de amor com a escrita e com a leitura.

C.: Você percebeu alguma mudança na autoestima?
C.: Bastante! Principalmente no quesito de leitura e escrita. Lembro que algumas vezes deixei a escolinha do Thor com um choro guardado, que doía mais na alma que no próprio peito. Acontecia que, a cada vez que ia buscá-lo, me diziam que ele havia amassado as folhas de papel e guardado na sua mochila. Ou então que ele havia arrancado do mural os trabalhos expostos dos amigos. Ele não fazia isso porque era uma criança perversa, ele fazia isso porque ele não sabia o que fazer com o papel, o que colocar nele, o que registrar ali. Hoje, ele dedica parte do seu tempo entre folhas, lápis e canetinhas.

C.: Como aconteceu o processo criativo e de produção? Qual foi a parte preferida dele?
C.: Foi como uma tarefa escolar. Ele tinha que escrever uma história, mas já chegou em casa com todos os elementos construídos e com as ilustrações. Quando ele foi me contando, percebi que as histórias mereciam outro formato, era mais que um dever de casa. Em alguns momentos, precisei fazer links, estimular com perguntas para dar mais elementos, mas achei muito rico. Agora, sobre a parte favorita é ele que tem que responder.
Thor: Do começo ao fim porque vi um grande futuro à minha vista. Estou orgulhoso de ter escrito o livro.

C.: De que outras maneiras você explora o potencial do Thor?
C: Morávamos fora do país quando recebemos o diagnóstico e tomamos a decisão de voltar para o Brasil. Desde então, iniciamos um trabalho de investimento em várias áreas: social, educacional e terapêutica. Tudo depende da fase em que ele se encontra. Observamos e aí procuramos recursos para dar suporte. O melhor foi fazer as pazes com o diagnóstico o quanto antes! E neste universo [do autismo], temos poucas respostas. Ele falava muito pouco, tinha uma dificuldade de interação, era difícil permanecer no mesmo lugar com as crianças da mesma idade. Não sabíamos se ele ia falar, o médico não sabia dizer. Oferecemos o que era possível dentro da nossa realidade. Buscamos parcerias na família, com médicos, amigos e na escola.

C.: O Thor já fala em escrever outros livros?
C.: Ficou um caso sério. Por ele, escreveria um livro por dia. Eu é que não tenho esse ritmo e essa condição. O universo dele é muito do faz de conta. Ele adora ver filmes, de animação, assiste repetidas vezes. Já tem pelo menos mais dois livros engatilhados, mas precisamos limpar o texto e trabalhar as ilustrações. O Bebê Dragão é uma história bastante simples, mas, se considerarmos o fato de que foi criada por uma criança autista, ela tem um significado muito rico.

C.: Como você diria que O Bebê Dragão ajudou você a criar vínculos com seu filho?
C.: Temos um vínculo bem forte, acreditamos que o amor tem poder transformador. Quando ele viu a repercussão do livro, falou que queria agradecer à mãe, que o ajudou a escrever. Me emociono com essa capacidade de reconhecer e ser grato. É de um significado único.

C.: E qual é a mensagem do livro, na sua opinião?
C.: O livro é um novo chamado para movimentarmos o assunto autismo e é também um alerta aos pais, educadores, amigos, familiares, terapeutas e médicos para levá-los a refletir sobre a infeliz capacidade humana de impor limites aos outros. Existem caminhos, possibilidades e pessoas que podem mudar e fazer histórias diferentes. Há, sim, um caminho de oportunidades e de possibilidades. O livro propõe espaços interativos e isso permite que os leitores explorem sua imaginação e sua emoção. Além disso, mostra que nem sempre o fácil é possível. Desenhar um dragão pode ser fácil para o Thor, mas é muito difícil para mim! Esse é um excelente exercício para trabalhar a ideia de que somos todos igualmente diferentes.

O Bebê Dragão, textos de Thor Cugnier Guenther e Claudia Cristine Cugnier Guenther e ilustrações de Thor Cugnier Guenther, Nova Letra Gráfica e Editora, R$ 15. A partir dos 4 anos

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